Fitch coloca UHEs e PCHs em Observação Negativa

Agência também lançou relatório que aponta AES Brasil, Cesp e Aliança como empresas mais pressionadas pelo risco hidrológico

A agência de classificação de risco Fitch Ratings revisou sua carteira de projetos hidrelétricos no Brasil, tendo em vista o cenário desafiador com a crise hídrica. Foram colocados em Observação Negativa os ratings das emissões das empresas Santo Antônio Energia, Norte Energia, Quevedos Energética, Rincão dos Albinos Energética e Rincão de São Miguel Energética.

A avaliação reflete a maior vulnerabilidade das emissões ao elevado risco hidrológico, considerado o pior em 91 anos, cenário que impacta a capacidade das UHEs participantes do Mecanismo de Realocação de Energia (MRE) de gerar energia das usinas hidrelétricas, o que potencialmente afetará o índice GSF e consequentemente aumentará os custos com a liquidação financeira no mercado de curto prazo.

O GSF mais baixo esperado e a elevação dos preços de energia poderão impactar a liquidez dos projetos e suas métricas de crédito esperadas, principalmente, para o segundo semestre de 2021 e 2022, se outras medidas não forem tomadas pelos projetos para mitigar esse risco.

Quevedos, Rincão de São Miguel e Rincão dos Albinos são pequenas centrais hidrelétricas que possuem parte de sua garantia física não contratada, o que serve de colchão para absorver o risco imposto por um índice menor. No entanto, a Fitch considera a parcela de energia não contratada por essas centrais insuficiente para mitigar esse risco, uma vez que a agência estima que o GSF seja inferior a 0,80 em 2021.

Por outro lado, Saesa e Norte Energia são grandes usinas que contrataram seguro GSF para cobrir a parcela da energia vendida, por meio de contratos de compra e venda de energia no mercado regulado. No entanto, ambos comprometeram energia com PPAs no Mercado Livre. Saesa tem 70% de sua garantia física contratada no mercado regulado e 30% no mercado livre, onde seu fluxo de caixa está exposto ao risco de um GSF significativamente inferior ao esperado.

UHE Agua Vermelha tem uma das menores capacidades de armazenamento junto ao SIN (AES Brasil)

Por sua vez, a Norte Energia apresenta seguro que cobre qualquer nível do risco para os PPAs do mercado regulado, e tem parte de sua garantia física não contratada. No entanto o projeto depende da venda de parte dessa parcela não contratada para cumprir suas obrigações e uma geração inferior à esperada, que representada por um menor GSF, gerará custos adicionais relacionados à compra de energia no mercado spot. A emissão da Norte Energia está coberta por garantia bancária apenas até o final de 2021.

A Fitch afirmou ainda que não realizou ações de rating negativas nas demais emissões de UHEs pois estes apresentam proteções estruturais ao menor GSF, como garantias corporativas que cobrem o montante total da dívida até que os projetos apresentem determinada performance financeira, ou a receita gerada integralmente por PPAs do mercado regulado em conjunto com seguro GSF SP100, que cobre totalmente o risco hidrológico.

AES, Cesp e Aliança entre as mais pressionadas

A baixa incidência de chuvas e a consequente diminuição do nível dos reservatórios têm afetado as geradoras, mas seu impacto nos ratings do setor será pontual, mostra relatório publicado na última segunda-feira pela Fitch.

De acordo com a publicação “Impacto da Crise Hídrica nas Geradoras Brasileiras”, AES Brasil, Cesp e Aliança são as mais pressionadas pelo risco hidrológico, sendo que a primeira sofreu ação de rating negativa, sendo rebaixada de ‘AA+(bra)’ para ‘AA(bra)’, refletindo uma expectativa de aumento da alavancagem financeira associado a maiores custos com compra de energia.

“O cenário hidrológico deteriorado é gerenciável para a maior parte dos grupos com geração de energia hidrelétrica avaliados pela Fitch, não havendo expectativa de novas ações negativas de rating em função do menor GSF”, afirma Lucas Rios, analista sênior da agência.

Diversos grupos têm negócios diversificados e proteções relevantes em seu balanço energético. Contudo, a análise enxerga impacto na geração de caixa de alguns grupos, especialmente na AES e Cesp, que conta com maior flexibilidade na distribuição de dividendos para absorver as perdas.