A democratização da energia elétrica no Brasil avança cada dia mais com a expansão da geração distribuída e a flexibilização do mercado livre de energia. O que antes parecia distante, como produzir, consumir e até comercializar a própria energia, hoje é realidade para muitos de brasileiros.
E isso é confirmado através dos dados da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD) que apontaram que a GD ultrapassou os 41 GW de potência instalada e mais de 3,7 milhões de unidades consumidoras no Brasil.
A classe residencial lidera o levantamento, com 43%, seguida pela comercial (24,7%) e a rural (11,8%). Na sequência aparece a indústria, com 6,5%. Já na análise regional, Sudeste, Nordeste e Sul aparecem nas três primeiras posições.
Em entrevista exclusiva ao CanalEnergia, a vice-presidente da ABGD, Zilda Costa, explica como essas mudanças estão transformando o setor energético nacional e criando novas oportunidades para consumidores de todos os portes.
Uma alternativa ao modelo tradicional
“A geração distribuída foi criada para atender o mercado regulado, especialmente consumidores de baixa tensão, comerciais e industriais que ainda não podem migrar para o mercado livre”, explicou Zilda Costa. Diferentemente do modelo centralizado, onde grandes usinas produzem energia que percorre longas distâncias até chegar ao consumidor final, a geração distribuída permite que a eletricidade seja produzida próxima ao local de consumo.
Regulamentada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) desde 2012, com a Resolução Normativa 482, a geração distribuída ganhou impulso significativo a partir de 2016. “Inicialmente, apenas quem tinha telhado disponível poderia gerar sua própria energia com placas fotovoltaicas. A partir de 2016, grandes empresas de telecomunicações, varejo, bancos e farmácias encontraram uma opção para gerar energia mesmo sem telhado, através das usinas remotas”, destacou a especialista.
Tecnologias
Embora a energia solar fotovoltaica represente 99% dos sistemas de geração distribuída no país, Zilda ressalta que existem diversas outras tecnologias disponíveis como os sistemas de biomassa, pequenas centrais hidrelétricas, eólicas, biogás de aterro sanitário e até mesmo sistemas híbridos, que combinam diferentes fontes.
Entretanto, a executiva fez questão de esclarecer que nem todo painel solar gera eletricidade. “É importante desmistificar que os sistemas solares térmicos, aqueles que aquecem água, não fazem parte do sistema de compensação elétrica. Eles não se relacionam com a distribuidora e vão direto para a rede de água das residências”, explica.
Além disso, entre as tecnologias disponíveis, a energia solar se destaca como a mais acessível para o consumidor comum. “O Brasil possui um expressivo potencial de geração pela fonte solar. Mesmo os estados com menor irradiação solar ainda são mais produtivos que países como Alemanha, França e Espanha”, declarou a especialista. Ela ainda destacou que além disso, é uma tecnologia fácil de instalar e hoje uma das mais baratas, já financiada por diversos bancos como Caixa Econômica, Bradesco e Votorantim.
Relacionamento com as distribuidoras
Zilda explicou ao CanalEnergia que, sem dúvida, a geração distribuída transformou a relação entre consumidores e distribuidoras de energia. “Quando colocamos a energia que geramos numa linha de distribuição, precisamos nos relacionar com a distribuidora”. Segundo ela, a GD é uma permissão onde geramos nossa própria energia, colocamos o excedente na rede e depois recebemos créditos dessa energia para quando formos consumir e aquela fonte renovável não estiver gerando.
Adicionalmente, esse modelo de compensação, conhecido como net metering, permite que o consumidor utilize a rede elétrica como uma espécie de bateria virtual, injetando energia quando há excedente e retirando quando necessário.
Inovações e tendências
Zilda também destacou as inovações mais recentes no setor, como os sistemas de armazenamento com baterias e o hidrogênio verde. “Hoje encontramos baterias dentro das residências ou comércios, no que chamamos de “behind the meter”, antes do medidor. Você gera seu excedente, coloca na bateria e consome antes de devolver à rede, funcionando como uma segurança energética”, explicou.
Quanto ao hidrogênio verde, a especialista ressalta que se trata de inovação. “O Brasil já utiliza energia de hidrogênio há muitos anos, mas o hidrogênio verde se diferencia pela forma como é produzido, utilizando energias renováveis no processo de eletrólise, detalhou.
Benefícios para o sistema elétrico
Contudo, a expansão da GD traz benefícios significativos para todo o sistema elétrico brasileiro. Ao gerar energia próximo ao ponto de consumo, reduz-se a necessidade de grandes investimentos em linhas de transmissão e distribuição, além de diminuir as perdas técnicas no transporte da eletricidade.
Além disso, com a crescente democratização do acesso às tecnologias de geração distribuída e a gradual abertura do mercado livre de energia, o Brasil caminha para um modelo energético mais sustentável, eficiente e participativo, onde consumidores de todos os portes podem se tornar protagonistas na produção e gestão da própria energia.
Por que a solar é a mais acessível
“A gente considera a geração solar como a mais acessível tanto economicamente quanto na facilidade de instalação”, explicou a especialista. Apesar do Brasil possuir fontes inesgotáveis de energia para geração distribuída, a solar se destaca pela simplicidade do processo.
“Como consumidores, não temos expertise em engenharia, então quanto mais simples for esse acesso, melhor. E isso acontece com a solar fotovoltaica”, destacou a Zilda. O sistema funciona como uma usina que se conecta à rede de distribuição, permitindo um empréstimo gratuito da energia gerada.
Como funciona na prática
O sistema solar fotovoltaico é composto por elementos relativamente simples. “Os principais ativos são os módulos fotovoltaicos, que representam cerca de 35% a 40% do custo total do sistema”, detalhou a vice-presidente da ABGD. A energia gerada em corrente contínua passa por um inversor e um quadro de corrente alternada, transformando-a em 110V ou 220V, compatível com as residências brasileiras. Um medidor bidirecional completa o sistema, mensurando toda a energia produzida e consumida.
Entretanto, para residências, o sistema é instalado no próprio local de consumo. Já para empresas com múltiplas unidades, como franquias ou lojas, é possível instalar uma usina centralizada e distribuir os créditos entre diferentes pontos de consumo.
Vantagens econômicas e operacionais
Zilda enumerou os principais benefícios para quem investe em geração distribuída. “A primeira vantagem é a segurança energética, porque durante o tempo que você pode armazenar energia, você não deixa de ter sua própria eletricidade”, destacou. “O segundo benefício é o encontro de contas, pois você coloca na rede, recebe de volta, e ainda tem créditos e saldo para utilizar quando necessário”.
Outro ponto destacado pela especialista é a independência das bandeiras tarifárias. “Quando você gera sua própria energia, não fica sujeito às bandeiras vermelha ou amarela, porque está gerando sua própria eletricidade. Quem gerou sua própria energia não utilizou térmica quando esta precisou ser acionada, então não participa da divisão das bandeiras”.
Retorno do investimento
Quanto à economia real e tempo de retorno do investimento, Zilda é objetiva e afirma que o investimento se paga em aproximadamente cinco anos, dependendo se o consumidor instalou um sistema muito grande, para todo o seu consumo, ou para ter excedente.
A especialista recomenda um dimensionamento adequado do sistema. “O ideal é que o sistema seja muito bem dimensionado para suprir o consumo daquele dia sem sobrar muitos excedentes. Porque no encontro de contas, se eu gerei um megawatt, consumi apenas 700 KW, 300 vão para um saldo a ser consumido depois, mas minha economia é dos 700, não do excedente.
Ela ainda explicou que para uma família de classe média com quatro pessoas, que consome aproximadamente R$ 400 por mês em energia elétrica, um sistema de cerca de R$ 22 mil, incluindo inversor, bateria, aproximadamente 10 placas e instalação, pode praticamente zerar a conta de luz. “Isso varia também se a pessoa quer colocar no telhado ou tem um espaço para instalar no terreno. Quando é no telhado, é um pouco mais caro do que no chão”, complementou.
Futuro
Questionada sobre o futuro da geração distribuída, Zilda foi enfática e afirmou que o futuro do Brasil é distribuído. “O futuro do Brasil não é a construção de mais grandes usinas centralizadas, mas sim um futuro distribuído, seguindo o exemplo do mundo”, disse.
A especialista destaca três tendências globais no setor energético, a descarbonização, descentralização e digitalização. Segundo ela, descarbonizar significa utilizar energia renovável. Descentralizar é tornar a energia distribuída próxima de onde há consumo. E digitalizar envolve investir em monitoramento e redes inteligentes.
Diante deste cenário, com a contínua expansão da geração distribuída e a crescente acessibilidade das tecnologias renováveis, especialmente a solar fotovoltaica, o Brasil caminha para um modelo energético mais democrático, sustentável e eficiente, onde consumidores de todos os portes podem se tornar protagonistas na produção da própria energia.
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Acompanhe a entrevista completa com a vice-presidente da ABGD, Zilda Costa:
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