Em um cenário econômico cada vez mais desafiador, pequenas e médias empresas brasileiras buscam alternativas para reduzir custos e aumentar sua competitividade. A eficiência energética surge como uma solução estratégica que, além de contribuir para a sustentabilidade, pode representar uma significativa economia financeira. Em entrevista ao CanalEnergia, o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia (Abesco), Bruno Hebert, compartilhou medidas práticas e acessíveis para empresários que desejam iniciar sua jornada nesse campo.

Segundo Hebert, existem cinco áreas principais onde pequenas e médias empresas podem implementar medidas de eficiência energética com baixo investimento e retorno financeiro significativo. “A primeira parte é iluminação. Onde você estiver, nas indústrias ou escritórios, utilize sempre lâmpada LED, que tem um consumo bem menor, e também sensores de presença. Quando você faz isso numa grande escala, ao longo dos anos, consegue ter uma redução bastante significativa no consumo”, explicou.

Automação

Além da substituição por lâmpadas LED e uso de sensores, Hebert recomenda a automação dos horários. “A partir de oito horas da noite, aquele setor todo vai estar desligado porque sei que não tem mais presença de pessoas, independentemente de ter a ação de um ser humano para fazer aquele desligamento”,  apontou.

A segunda área de atenção é o ar-condicionado e refrigeração. “Sempre utilize equipamentos mais eficientes e, quando não for possível a troca do equipamento, invista na manutenção. Essa ação é muito importante, especialmente da parte do trocador de calor. Em alguns casos, a falta de manutenção pode aumentar o consumo em 20% a 30%, algo simples de ser resolvido”, destacou.

Já para empresas que utilizam motores e bombas, o presidente da Abesco recomenda a adoção de inversores de frequência. “Você consegue controlar a velocidade dos motores e adequar a carga, o que faz uma redução bastante significativa no consumo”, pontuou.

Na parte de processo produtivo, adequar máquinas e eliminar desperdícios é o caminho. “Faça um estudo para verificar se realmente precisa de todos aqueles equipamentos para realizar o trabalho. Isso não entra na questão de substituição de equipamento, mas de engenharia de produção, melhorando os processos no chão de fábrica”, disse.

Por fim, nas edificações, o especialista recomenda melhorar o isolamento térmico e criar layouts que aproveitem a ventilação e iluminação natural. Por muitas vezes há escritórios onde as pessoas têm luz natural mas estão com as cortinas fechadas.

Benefícios econômicos

O benefício econômico é a melhoria do fluxo de caixa, uma injeção de recursos na veia. Você pode reduzir uma conta R$ 100 mil em 20% a 30%.
Bruno Hebert, da Abesco

Os benefícios econômicos da implementação dessas medidas são significativos, especialmente para pequenas e médias empresas que operam com margens apertadas. “O benefício econômico é a melhoria do fluxo de caixa, uma injeção de recursos na veia. Você pode sair de uma conta de R$ 100 mil e reduzir em 20% a 30%. As pequenas e médias empresas têm margens pequenas, o custo com mão de obra é alto, e muitas vezes falta recurso até para ter um jurídico ou consultoria dentro da empresa”, explicou Hebert.

O presidente da Abesco ressaltou ainda que alguns projetos de eficiência energética se pagam em apenas seis meses, com equipamentos que têm vida útil de cinco anos. Isso representa um retorno sobre investimento que ele classifica como extraordinário.

Desafios para adoção de práticas eficientes

Apesar dos benefícios evidentes, a Abesco avalia que o nível de conhecimento e adoção de práticas de eficiência energética entre pequenas e médias empresas brasileiras precisa melhorar. “A gente avalia como ainda muito baixa a disseminação do conhecimento nesse campo como estratégia de geração de caixa dentro das empresas”, afirmou Hebert.

Além disso, um dado compartilhado com o CanalEnergia ilustra a importância do investimento em equipamentos eficientes. “Da vida útil de um motor, 96% de tudo o que ele gasta é no OPEX, ou seja, na operação, manutenção e conta de energia. Apenas 4% é o custo de aquisição. Portanto, você realmente tem que procurar comprar equipamentos eficientes, porque ao longo da vida útil, ele vai se pagar 20 vezes”, explicou.

Potencial de economia

Contudo, quando questionado sobre o potencial de economia que pequenas empresas podem alcançar, Hebert menciona dados do Ministério da Indústria e Comércio. “O parque médio da indústria brasileira tem 15 a 20 anos de vida útil. Quando você traz esses equipamentos que têm 20 anos para os equipamentos que existem hoje, você chega a ter redução de 20% do consumo de energia. Em alguns casos, pode chegar a 30% quando você implementa todas essas ações de eficiência energética”, destacou.

Barreiras

Entre as principais barreiras para maior adoção de práticas de eficiência energética, está a falta de linhas de financiamento específicas e o limitado entendimento do setor financeiro sobre o tema.

“Ao longo do tempo, o conhecimento e a disseminação da tecnologia de energia solar fez com que os bancos entendessem melhor esse tipo de geração, facilitando seu financiamento. Precisamos de um trabalho semelhante para a eficiência energética, com os bancos entendendo melhor, tendo especialistas internos analisando esse tipo de contrato e criando áreas específicas para isso”, defendeu Hebert.

Além disso, o executivo também destacou o papel dos acordos internacionais. “Todos os acordos internacionais, como o Acordo de Paris e a COP28, dos quais o Brasil é signatário, exigem uma redução no consumo e melhoria na eficiência energética. Para isso, precisamos de mão de obra especializada e financiamentos diferenciados para o país se desenvolver”, disse.

Ademais, Hebert afirmou que a Abesco tem atuado junto ao Poder Legislativo, conversando com congressistas, deputados federais e senadores para sensibilizá-los a criar políticas específicas para o setor. Um avanço importante foi a aprovação do PATEN (Programa de Aceleração da Transição Energética), que em seu artigo 18 estipula que 1% da receita operacional líquida de todas as concessionárias de energia deve ser investido em eficiência energética.

“Existe também um programa chamado Potencialize, do qual somos apoiadores junto ao Senai, para formar profissionais nesse segmento. A luta da entidade é difundir a eficiência energética como um dos pilares dessa transição energética, porque não se trata apenas de gerar energia, mas de utilizá-la de forma consciente”, ressaltou Hebert.

Tendências e inovações

Quanto às tendências e inovações em eficiência energética para os próximos anos, Hebert aponta o armazenamento de energia como uma tecnologia  importante.

“Como as empresas têm tarifas diferenciadas em horários distintos, o armazenamento de energia pode representar uma grande economia para pequenas empresas. É como se fosse um gerador, mas com a vantagem de acumular energia em bancos. Vários projetos que não tinham viabilidade financeira ou econômica passarão a ter com essa nova tecnologia”, afirmou.

O caminho para a competitividade

Para finalizar, Hebert enfatiza a importância de o empresário brasileiro buscar aprimoramento contínuo. “O empresário precisa se capacitar em todos os sentidos, não só no seu negócio principal. Muitas vezes, ele menospreza pequenas economias, mas em um mundo cada vez mais competitivo, se a indústria brasileira não tiver esse engajamento de buscar novas tecnologias e maximizar sua performance, não teremos competitividade mundial”, disse.

Em suma, o executivo destacou que para sairmos à frente nas próximas décadas, é preciso ter essa consciência. “Isso não se faz em um ou dois anos, mas é um trabalho contínuo que precisa começar agora”, conclui o presidente da Abesco.

Leia mais:

Webinar irá discutir como a eficiência energética pode impulsionar competitividade

FAB economizará R$ 1,17 milhão com projeto de eficiência energética

Arena MRV obtém selo de eficiência energética do Procel