O setor elétrico brasileiro está passando por uma transformação significativa com a abertura gradual do mercado livre de energia, que promete revolucionar a forma como consumidores se relacionam com seus fornecedores de energia. Em entrevista exclusiva ao CanalEnergia, o diretor comercial da Auren Energia, Ciro Neto, detalha as mudanças e oportunidades que esta abertura representa.
Atualmente, cerca de 60% da carga energética do Brasil já é consumida no mercado livre, resultado de movimentos recentes de abertura. A expectativa é que esta expansão continue, com a inclusão de novos participantes nos próximos anos. “A abertura será gradual, com CNPJs do grupo B podendo migrar a partir de janeiro de 2027, e CPFs do mesmo grupo a partir de janeiro de 2028”, explicou Ciro.
Transformação na relação com os consumidores
Uma das principais mudanças destacadas pelo executivo é a evolução no relacionamento entre fornecedores e consumidores. “O cliente vai poder estabelecer uma relação bilateral com seu fornecedor, e não mais unilateral como é no mercado cativo”, afirmou. Esta mudança empodera os consumidores, permitindo que negociem contratos personalizados de acordo com suas necessidades.
Ciro comparou esta evolução com o que já acontece no setor de telecomunicações. “Assim como operadoras oferecem benefícios como não descontar dados do WhatsApp ou redes sociais, o setor elétrico caminhará para oferecer serviços agregados que fidelizem o cliente e concentrem diversos serviços em uma única plataforma”.
Benefícios além da economia
Quando questionado sobre os benefícios além da economia financeira, o executivo da Auren destaca que o valor percebido varia conforme o perfil do consumidor. “Gerações mais antigas tendem a valorizar principalmente o desconto, enquanto as novas gerações estão mais preocupadas com sustentabilidade, não se importando em pagar mais por uma energia renovável”, destacou.
Esta diversidade de preferências é justamente o que torna o mercado livre de energia tão atrativo. “A beleza desse mercado é poder acordar nesses contratos de forma bilateral, entregando para o cliente aquilo que gera mais valor para ele”, complementou.
Papel na transição energética
O mercado livre também desempenha um papel fundamental na transição energética e na escolha por fontes renováveis. “É necessário principalmente educar o consumidor que ele tem essa opção e quais são os impactos dessa escolha na sociedade”, explicou Ciro, comparando com o movimento de “desbancarização” liderado pela XP nos últimos anos, que educou consumidores sobre alternativas à poupança tradicional.
“Os eventos climáticos extremos estão aí para demonstrar todos os impactos sociais e econômicos da não opção por energia limpa”, alertou. Segundo ele, as empresas que perdurarão no setor serão aquelas capazes de construir uma narrativa educativa sobre a importância do consumo de energia renovável.
Cuidados na migração
Para consumidores interessados em migrar para o mercado livre, Ciro Neto recomenda atenção especial a dois aspectos: entender as cláusulas contratuais, especialmente relacionadas aos encargos e avaliar a robustez da empresa fornecedora.
“Existem contratos com e sem encargos. Na Auren sempre oferecemos produtos com encargos incluídos, com a opcionalidade do cliente escolher”, explicou. Ele alerta que os encargos podem chegar a valores superiores ao total do consumo, representando um risco significativo se não forem adequadamente considerados.
Quanto à escolha do fornecedor, o executivo destaca a importância de verificar a solidez da empresa. “O Grupo Votorantim e a Auren são a terceira maior geradora de energia renovável no Brasil, o que dá segurança ao cliente de que receberá a energia contratada, diferente de outras comercializadoras que não conseguem oferecer as mesmas garantias”.
Com a abertura total do mercado se aproximando, o setor elétrico brasileiro caminha para uma reinvenção completa, onde a relação com o cliente e a sustentabilidade serão fatores determinantes para o sucesso das empresas no novo cenário energético nacional.
Digitalização como pilar fundamental na nova era
A abertura do mercado livre de energia no Brasil não apenas transformará a relação entre consumidores e fornecedores, mas também exigirá uma revolução digital no setor. Na conversa com o CanalEnergia, Ciro Neto destacou como a tecnologia será determinante para viabilizar a expansão do mercado para milhões de novos consumidores.
“Fundamental. Na verdade, é algo cujo papel é inseparável nesse novo momento”, destacou o executivo sobre a importância da digitalização na gestão da energia contratada. Segundo ele, o volume de clientes que ingressará no mercado torna impossível manter o modelo atual de negociações personalizadas sem um robusto processo de digitalização.
O cenário futuro apresenta um contraste significativo com o modelo atual. “Hoje você discute um contrato, você adequa da melhor forma. Mas para gerar escala, você vai ter que formatar um produto que atenda o público para o qual você quer entregar energia”, ressaltou o executivo.
A digitalização, portanto, não representa apenas uma necessidade operacional para as empresas do setor elétrico, mas também um catalisador para a criação de um novo ecossistema de negócios que promete transformar profundamente a economia energética brasileira nos próximos anos.
Atendimento personalizado
Uma das principais mudanças destacadas por Ciro é a transição do modelo de negociação personalizada para sistemas automatizados. “A gente sempre discute o contrato, indo sempre na mesa para modular o produto e a carga. Isso não vai acontecer mais para um cliente tão pequeno de forma personalizada”, revelou.
Contudo, em substituição às negociações presenciais, surgirão soluções digitais. “Ele vai acontecer dentro de mais escala, através de um algoritmo onde ali vai ter que estar previsto quais são os benefícios e quais são as margens que esse cliente pode acessar de forma digital. Você não vai poder disponibilizar um recurso humano para estar fazendo esse tipo de negociação”, complementou.
IA
Do mesmo modo, a busca por soluções tecnológicas avançadas já é uma realidade para empresas como a Auren. “A inteligência artificial está aí para somar nesse sentido, e nossa busca por esse tipo de mecanismo tem sido muito intensa”, destacou Ciro.
Além disso, o executivo mencionou os investimentos concretos nessa área. “Nosso time estava no fórum promovido pelo Salesforce para apresentar o agente Force, que é a principal tecnologia de inteligência artificial hoje do nosso CRM”. Segundo ele, a empresa está “numa corrida frenética para conseguir se antecipar nesse movimento e estar digitalizada em tempo para essa abertura para esses 90 milhões de clientes”.
Além da transformação digital, Ciro destaca um aspecto importante que surge com a abertura do mercado: as oportunidades para novos empreendedores. “A gente não fará esse trabalho de trazer clientes para nossa base sem parcerias com empresários do Brasil, que vão ser a nossa linha de frente no contato com esses clientes. E aí tem muito dinheiro na mesa para ser usufruído por essas empresas que conseguirem enxergar nessa abertura de mercado uma oportunidade de negócio”, afirmou.
Novamente o executivo comparou o momento atual com o que ocorreu no setor de telefonia. “Eu me lembro quando na telefonia houve vários empresários que mudaram a sua realidade por conta da abertura do mercado. Acho que isso vai acontecer também na nossa economia com a abertura do mercado de energia”.
Entretanto, Ciro prevê um cenário onde, além da consolidação dos grandes players, surgirá “uma gama de empresários, prestadores de serviço de venda, instalação, adequação, que também vão se beneficiar fruto dessa abertura do mercado e vão poder participar desse ciclo virtuoso pelo qual eu acredito que o Brasil vai entrar com a abertura do mercado livre”.
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