A volatilidade do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) horário tem se consolidado como um dos principais desafios e oportunidades do setor elétrico brasileiro, especialmente para os consumidores do mercado livre. Segundo o diretor de comercialização da Armor Energia, Fred Menezes, essa dinâmica reflete os efeitos da intermitência das fontes renováveis e demanda novas estratégias na contratação e gestão de energia.
Em outubro de 2025, o PLD horário registrou um desvio padrão de R$ 96,32/MWh, equivalente a 40% de variação por hora, segundo análise da Armor Energia. A média do PLD semanal (modelo Decomp) foi de R$ 296,40/MWh, enquanto o PLD diário (modelo Dessem) ficou em R$ 250,20/MWh. Essa volatilidade reflete os desafios de uma matriz elétrica mais diversificada e intermitente, marcada pela crescente participação de fontes renováveis como solar e eólica.
“Em um cenário de alta volatilidade e avanço das fontes renováveis, o PLD horário se consolida como termômetro da nova matriz elétrica brasileira, mais descentralizada, digital e sensível às variações climáticas”, explicou Menezes ao CanalEnergia. Ele destacou que a gestão inteligente do consumo e do risco é essencial para garantir competitividade, sustentabilidade e eficiência no uso da energia.
Exemplos práticos ilustram essa volatilidade: no dia 12 de outubro de 2025, o preço da energia no modelo Dessem passou de R$ 58,60/MWh às 15h para R$ 279,04/MWh às 16h, uma diferença de R$ 220,44 em apenas uma hora. “Essa volatilidade torna a precificação dos produtos horários mais complexa, exigindo maior experiência e agilidade dos agentes do setor elétrico. Se olhássemos apenas o PLD horário, estaríamos sob bandeira amarela”, comentou Menezes.
Evolução do PLD horário
Desde sua implementação em janeiro de 2021, o PLD horário tem capturado as mudanças na matriz elétrica nacional. Inicialmente, a severa crise hídrica daquele ano pressionou os preços de forma estrutural, deixando pouca margem para variações horárias. Nos anos seguintes, períodos úmidos favoráveis e demanda retraída mantiveram os preços baixos. Contudo, a partir de 2024, com a revisão do modelo de precificação, o PLD horário começou a refletir de forma mais realista os desafios de uma matriz mais diversificada e intermitente.

Fred Menezes, da Armor Energia
“A transição de uma matriz elétrica hidrotérmica para uma composição diversificada de fontes – majoritariamente renováveis – reduziu custos e emissões, mas trouxe novos desafios à operação do sistema”, explicou Menezes. Durante o dia, especialmente entre 10h e 14h, há excesso de oferta devido à alta geração renovável, o que pressiona os preços para baixo e, em alguns casos, leva ao curtailment. Já no início da noite, entre 18h e 21h, a oferta cai rapidamente enquanto a demanda aumenta, exigindo o acionamento de usinas térmicas mais caras e poluentes para equilibrar o sistema.
“O PLD horário captura essas variações, enviando sinais econômicos mais precisos para o despacho e o consumo de energia, um passo essencial para o amadurecimento do mercado livre e a integração de tecnologias como as baterias de armazenamento (BESS)”, complementou Menezes.
Modernização e incentivo ao uso eficiente
A modernização da estrutura tarifária é uma das respostas aos desafios da matriz elétrica. A Aneel iniciou o debate sobre a ampliação da Tarifa Branca, atualmente utilizada por cerca de 69 mil unidades consumidoras. Pela proposta, a migração será automática para consumidores acima de 1.000 kWh/mês em 2026 (cerca de 2,5 milhões de unidades) e, em 2027, para quem consome acima de 600 kWh/mês. O objetivo é alinhar os preços à dinâmica real do sistema elétrico, incentivando o uso de energia nos horários de menor custo e evitando o desperdício da geração limpa durante o dia.
No mercado livre, contratos com modulação horária estão ganhando relevância em contraposição ao tradicional modelo flat. Menezes sugeriu que os consumidores avaliem o preço médio ponderado pelo consumo de energia em comparação ao custo flat e analisem se modificações operacionais podem ser feitas para aproveitar melhor os horários com preços mais baixos. “O mercado caminha para uma realidade em que informação, tecnologia e estratégia serão tão valiosas quanto o próprio megawatt. O PLD horário é o espelho dessa nova fase do setor elétrico brasileiro”, concluiu.
Tecnologias
Entre as soluções tecnológicas para lidar com a volatilidade do mercado, o armazenamento de energia, como baterias (BESS), surge como uma alternativa promissora. Menezes destacou que essa tecnologia pode ajudar a equilibrar a oferta e a demanda, permitindo o armazenamento de energia em horários de sobreoferta e sua utilização em momentos de alta demanda. “É necessário analisar os custos, mas o armazenamento pode ser uma solução para aumentar a oferta em horários de pico e reduzir os preços nesses períodos”, afirmou. No entanto, ele alerta para as limitações de infraestrutura e potência que ainda precisam ser superadas para viabilizar essa solução em larga escala.
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