Matriz 100% renovável é viável, aponta PSR

Estudo feito junto ao Banco Mundial fala em um atendimento da demanda em 180 mil MW médios com ganhos de eletrificação de 60 mil MW médios a outras indústrias

Para o Brasil a pouco dependência de petróleo e gás importado no contexto da guerra trazem oportunidades nas estratégias “no regret”, que alinham descarbonização, benefícios econômicos e resiliência. É o caso do hidrogênio, que pode ajudar também na menor dependência de fertilizantes russos como a amônia. Esse foi o tom da palestra inicial do Workshop PSR/CanalEnergia, realizado ao longo dessa terça-feira, 19 de abril.

O fundador e atual diretor de inovação da consultoria, Mário Veiga, destacou a inserção maior dos biocombustíveis, carros elétricos, usinas reversíveis e na questão do Net Zero, que na sua visão é muito viável no Brasil, citando um estudo recente feito entre a empresa e o Banco Mundial.

“O país pode chegar a 100% da matriz elétrica renovável com atendimento a demanda de 180 mil MW médios e ganhos de eletrificação de 60 mil MW médios a mais para outras indústrias”, aponta o executivo, lembrando também da necessidade de valorização dos atributos das fontes de armazenamento e flexibilidade, representando os impactos climáticos nas vazões nos estudos de planejamento e operação.

Outra frente que a PSR está se debruçando é numa certificação horária para a produção de renováveis em tempo real, trabalhando nesse momento no desenvolvimento de um token para certificação. Já à médio prazo o ponto é investir em recursos naturais, basicamente reflorestamento. “Tem escala e pode-se criar instrumentos para dar credibilidade”, completa Veiga.

Setor elétrico é líquido
Na visão do especialista, o setor elétrico vive uma montanha russa de mudanças nos últimos dois anos, saindo de um 2020 pessimista para 2021 com a grande virada otimista a partir da vacina e dos drivers de descarbonização e transição energética, com a consolidação do Net Zero, ESG e outras frentes verdes, com as empresas tendo maiores obrigações.

Sobre a invasão russa à Ucrânia, Veiga lembra que a crise energética é anterior a guerra e que os alertas do IPCC apontam para o avanço das mudanças climáticas e aumento da temperatura média do planeta. “Achavam que não precisavam mais de óleo e gás, a Inglaterra entendia que vento era para sempre, e o desenho do mercado europeu baseado no preço spot não trouxe proteção para variabilidade”.

Agora ele enxerga algumas mudanças e incoerências tidas até pouco tempo, como a União Europeia convergindo para os contratos de longo prazo como solução, a Inglaterra criando subsídios para usinas a diesel (com a participação até de empresas solares) e a turma do ESG falando em largar os investimentos em carvão e petróleo ao passo em que essas indústrias tiveram lucros absurdos nos últimos anos.

“Hoje no Financial Times há também uma notícia de uma empresa de petróleo que conseguiu enquadrar a caracterização de créditos de carbono por fazer uma perfuração utilizando o CO2”, comentou Veiga, arrancando risos da plateia.

Ademais o fundador da PSR citou o avanço tecnológico como um dos fatores que lhe dão esperança no desenvolvimento e melhorias para o setor e que a pressão econômica vai fazer o Brasil entrar de vez na descarbonização, com o processo de inovação recaindo em “juntar tecnologias como digitalização, sensores e nanotecnologia para a área de energia”.

Por outro lado, Veiga enxerga a evolução social do ser humano muito mais lenta do que essa evolução e escalada tecnológica, o que cria riscos mundiais como por exemplo a guerra na Ucrânia. “Uma encruzilhada entre o paraíso e a possibilidade de dar tudo errado”, finaliza.