Ausência de contratos competitivos ameaça setor de ferro ligas

Cerca de 80% das empresas estão paralisadas em decorrência de aumento de cerca de 400% na tarifa de energia a partir de 2015

Enquanto o mercado se preocupava com a situação dos consumidores eletrointensivos do Nordeste atendidos pela Chesf o segmento de ferro ligas e silício metálico caminhava no mesmo sentido. Atendidas pela Cemig em Minas Gerais, as empresas praticamente pararam a produção no início do ano em decorrência do encerramento dos contratos de fornecimento. Os novos valores apresentados para o insumo que representa em média 42% do custo de produção variou mais de 400%.

De acordo com o diretor executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Ferro Ligas e de Silício Metálico, Edivaldo Holman, a tarifa passou da casa de R$ 83/MWh antes do aumento da CDE para algo próximo a R$ 450/MWh. Desse novo valor, a energia reponde por cerca de R$ 380/MWh e a diferença é o encargo, que aumentou 301% nessa base de comparação.
O executivo relatou que em Minas Gerais está cerca de 80% da capacidade instalada desse segmento no país, que é de 930 mil toneladas ao ano. Segundo ele, apenas as empresas que possuem cláusulas contratuais que trazem penalização por não entrega de produção é que estão operando. “Hoje, 80% da indústria de ferro ligas de todo o país está praticamente parada, ainda há algumas que estão em funcionamento em função de contratos de exportação”, disse ele à Agência CanalEnergia.
A demanda de energia deste setor é de 700 MW médios que não foram renovados em função da inexistência desse volume a preços mais baixos para atender as empresas. Holman revela que a Cemig alegou a indefinição quanto a renovação das UHEs de Jaguara e São Simão para não fechar novos acordos a preços mais acessíveis, pois não teriam energia suficiente. Segundo ele, os contratos que venceram em 31 de dezembro do ano passado tinham valores entre R$ 60 a R$ 66/MWh sem contar o acréscimo da CDE ao montante de R$ 17/MWh.
“Temos que encontrar uma solução para o setor ainda este ano porque senão todas as empresas correm o risco de encerrar suas atividades”, alertou ele. “A energia representa um peso muito grande às empresas do setor podendo chegar a até 60% do custo de produção, dependendo do caso”, acrescentou ele.
Outro impacto relevante, e que levou à comparação com a situação que ameaçava a economia das cidades no Nordeste, é sobre os municípios onde estão essas unidades de produção. Em Araxá (MG), por exemplo, o faturamento da indústria representa 97% do PIB da localidade. Em Pirapora e Pojuca, no mesmo estado, o impacto é menor, mas mesmo assim está acima de 80% do PIB desses municípios.
Até o momento a Abrafe estima em 15 mil o número de demissões por conta da retração da atividade do setor. E as empresas que ainda operam para atender os contratos de exportação o fazem, mas de forma que as condições econômico financeiras fiquem desequilibradas.
O perfil exportador das empresas representadas pela Abrafe é um dos argumentos que o setor utiliza para justificar a necessidade de ter energia a um custo mais baixo. Segundo as estatística da entidade, em 2013 cerca de 70% dos produtos de ferro ligas e 85% de silício metálico foram exportados. Esse ano a entidade não estima qual deve ser o impacto sobre as atividades já que a produção está praticamente parada.
Uma das formas que a entidade acredita representar uma saída para essa verdadeira armadilha na qual essa indústria está envolvida é a solução dada para a extensão dos contratos da Chesf. Aliás, um dos beneficiários dessa medida faz parte da Abrafe, a Ferbasa.
Holman elogiou a iniciativa do governo. Classificou a decisão como positiva e avaliou a MP como uma medida bem estruturada e consistente que permite promover o acesso ao insumo que permite ter competitividade. “A única consideração que temos é que as condições de suprimento deveriam ser concedidas de forma isonômica para todas as indústrias do setor de ferro ligas para que não tenhamos um problema concorrencial interno em decorrência de uma empresa ter energia a um custo mais baixo e outras não terem essa oportunidade. Por isso estamos fazendo um trabalho junto aos deputados para que possamos ter as mesmas condições que a MP 677 proporcionou às industrias do Nordeste”, disse ele.
Essa confiança do executivo toma como base o impacto negativo na economia nacional e na balança comercial que a paralisação que se avizinha poderia ter sobre o país. Segundo Holman, o setor que representa movimenta uma indústria de alto valor agregado e movimenta direta e indiretamente cerca de R$ 32 bilhões ao ano. A receita gerada pelas atividades do setor é de R$ 8,7 bilhões ao ano com exportações de R$ 4,5 bilhões.