Para executivos do setor, previsibilidade é chave para atração de crédito e investimentos

Desafio é buscar a diminuição do risco de projetos e o aumento da credibilidade

Para que o setor elétrico consiga continuar no mesmo ritmo de expansão e garanta o acesso ao crédito e investimentos, é necessário que ele mantenha a previsibilidade e não sofra interferências. De acordo com Solange Ribeiro, presidente do Grupo Neoenergia, grandes projetos, como o da UHE Teles Pires não podem ver seu risco aumentado de maneira inesperada, sob pena de se afastar os investimentos no setor. Para ela, o setor elétrico é previsível e o desafio do setor é fazer que essa previsibilidade aconteça. “Teles Pires foi uma usina feita em 40 meses e hoje está com um risco inimaginável", afirma a executiva, que participou de debate com outros executivos do setor no Encontro Nacional de Agentes do Setor Elétrico, realizado na última quarta-feira, 27 de maio, no Rio de Janeiro (RJ). A UHE Teles Pires está em fase final de implantação mas pode não ter como escoar a energia por atrasos na transmissão.

E o risco é um fator que deverá estar na pauta do leilão da usina de São Luiz de Tapajós, que tem a Neoenergia como um dos membros do grupo de estudo cujas empresas devem disputar a usina. A hidrelétrica de mais de 8 mil MW deve ser leiloada ainda este ano, mas a executiva alerta que eventuais entraves no desenvolvimento do projeto da usina podem vir a afastar as empresas de projetos hídricos, que ela classifica como bons negócios. Para ela, enquanto órgãos como o Ibama vem evoluindo ao longo do tempo, outros como a Funai e o Iphan ainda não chegaram no mesmo patamar e enfrentam dificuldades. "Se não tratar projeto estruturante da forma certa, quem serão os acionistas dos próximos projetos?", indaga. 

O financiamento foi outro ponto bastante discutido, uma vez que a atual conjuntura econômica do país e o recente anúncio feito pelo ministro Joaquim Levy de que não havia mais dinheiro vão fazer com que o setor busque outras vias de crédito. Para Oderval Duarte, sócio e head de energia do banco BTG Pactual, o desafio da financiabilidade não está apenas com o setor elétrico, mas com todos os outros da infraestrutura. Ele acredita que o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social vai continuar liderando no acesso ao crédito mesmo com as restrições impostas pelo governo, por ter prazos mais longos e acesso facilitado a recursos. Ele lembra que os bancos privados analisam aspectos como o prazo e o preço e que iniciativas vem sendo desenvolvidas por eles para expandir o crédito no setor. O Chile aparece como exemplo a ser seguido. Segundo Duarte, no país vizinho é o financiamento privado quem domina nesse tipo de projetos. "A credibilidade é fundamental. Do contrário, o setor acaba passando para o mercado financeiro que o risco é alto", avisa.

Já Britaldo Soares, presidente da AES Brasil, insistiu que o setor deve perseguir a estabilidade do marco regulatório e evitar as judicializações. "Interferências trazem ônus à frente" frisa. Pedindo mais planejamento, ele lamenta que em determinadas ocasiões seja necessário que se decida por essa mesma judicialização de um tema. Para Luiz Fernando Rolla, diretor de Relações com Institucionais e de Comunicação da Cemig, o setor elétrico deve trabalhar na mitigação dos seus entraves de modo que não seja acusado de ser um obstáculo para o desenvolvimento do país.  "Temos que criar um ambiente para evitar que o governo retire recursos para colocar no setor", observa. Ele também frisa que o país deve replicar o ambiente que investidores estrangeiros consideram ideal, com risco calculado, segurança jurídica e governança corporativa. A presidente da Neoenergia contou que investidores estrangeiros mostraram pouco apetite para investir no setor elétrico brasileiro devido ao fator de risco que vem sendo apresentado em assuntos como o GSF.
 
Outras formas de financiamento serão buscadas, como as debêntures de infraestrutura. Os executivos apontam que os recursos virão, mas os prazos serão menores, o que poderá levar a refinanciamentos. Oderval Duarte, do BTG Pactual, aponta que os fundos de pensão podem ser aliados importantes, mas que uma solução só virá quando os entraves relacionados pelos agentes forem debelados. "Não há uma alternativa, a solução só virá com novas proposições que tragam credibilidade", conclui.