Diagnóstico do setor indica investimentos prioritários em P&D para atender demanda nas próximas décadas

Estudo do Ministério da Ciencia e Tecnologia envolveu mais de 700 especialistas, mapeou áreas estratégicas e indicou linhas de pesquisa no país

Um amplo diagnóstico realizado nos últimos dois anos pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos indicou quais são as áreas nas quais o país terá de concentrar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento para atender a demanda de energia elétrica até 2050. A instituição ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações promoveu 88 reuniões temáticas com mais de 700 especialistas,  mapeou áreas estratégicas, identificou mais de 140 mil pesquisadores e envolveu 80 instituições de pesquisa, além de indicar 2,7 mil linhas de P&D para o setor.

O estudo “Prospecção tecnológica no setor de energia elétrica” foi feito a pedido da Agência Nacional de Energia Elétrica e  apresentado na última quinta-feira, 3 de agosto, no Congresso Nacional de Inovação em Energia Elétrica (Citenel), em João Pessoa (PB). O objetivo do projeto é orientar as decisões de planejamento e investimento, a partir do mapeamento de rotas tecnológicas prioritárias definidas pelos especialistas, com a participação do próprio setor. “Ele ajuda não somente a Aneel, mas as empresas e os pesquisadores também a se olharem ali dentro e identificar onde está o grande potencial”, explica  a coordenadora do estudo, Ceres Cavalcanti.

A pesquisadora da CGEE conta que o projeto usou vários métodos, desde opiniões de especialistas até nove grandes bases de dados. O trabalho envolveu também várias pesquisas de opinião via web junto a especialistas, com a participação de mais  de 3 mil profissionais de mais de 80 instituições de todo o Brasil.  Foram contratados ainda mais  de 150 pesquisadores para montar notas técnicas sobre assuntos específicos. “Realmente foi um projeto gigantesco até chegar nesse plano estratégico e nas rotas priorizadas”, explica.

Ele ajuda não somente a Aneel, mas as empresas e os pesquisadores também a se olharem ali dentro e identificar onde está o grande potencial
Ceres Cavalcanti, do CGEE

O trabalho teve a participação da Cesp, Copel, Cemig, Light, CPFL Sul, CPFL Paulista e CPFL Piratininga, Energética Barra Grande, Campos Novos Energia e AES Tietê. A Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica também atuou como instituição executora do projeto, em apoio às empresas.

O ponto de partida foi um cenário adaptado, construído em parceria com  Empresa de Pesquisa Energética, Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, Operador Nacional do Sistema Elétrico e os ministérios de Minas e Energia, de Ciência e Tecnologia e da Indústria e Comércio.  Esse cenário apontou para um crescimento muito grande da demanda por energia elétrica nos próximos anos, o que vai representar para o setor um grande desafio de construir o equivalente a mais de três vezes a capacidade instalada atual.

“A gente tem toda uma mudança de paradigma em função da entrada da geração distribuída, das redes elétricas inteligentes, do prosumer (o consumidor que também  é produtor de energia)”, lembra Ceres Cavalcanti. Foi diante dessa situação que a Aneel encomendou o estudo de  prospecção em energia no setor elétrico, para mapear áreas estratégicas e identificar indicadores importantes dos nichos de pesquisa no Brasil.

Na primeira etapa, foram realizados painéis com os especialistas para mapear as áreas, com a  divisão em cinco grupos temáticos sobre geração e armazenamento de energia elétrica, transmissão, distribuição e assuntos sistêmicos. Assuntos sistêmicos abrangem questões que interferem nas outras quatro áreas, como por exemplo, o planejamento da operação e o da expansão do sistema, regulação e tecnologias  de capacitação de recursos humanos.

Desses grupos  resultaram 48 agendas estratégicas, a partir das quais identificou-se mais de 400 rotas tecnológicas e as linhas de P&D, com a definição de quais dessas rotas são prioritárias. Foi feito no processo o levantamento de laboratórios, pesquisadores, patentes, artigos científicos publicados em revistas cientificas, artigos apresentados em eventos das empresas e os projetos do programa de pesquisa e desenvolvimento da Aneel. Com esse conjunto de informações, os pesquisadores criaram o que eles chamam de visões de futuro para cada área macrotemática, que é basicamente a definição de onde se pretende chegar.

Construídas as trajetórias e definidas como elas se encaixam na cadeia de inovações, o próximo passo será a definição de um plano de ações para isso se torne realidade, explicou Ceres. Ela lembra que existem ações de curto, médio e longo prazos. “A gente escutou muito ao longo das reuniões que é fazer o básico. Por exemplo, a gente precisa mapear melhor os ventos, mapear melhor o sol, incorporar este mapeamento e essa variabilidade nos nossos modelos, nos nossos algoritmos, para que o planejamento se torne mais eficiente. E aí eu estou falando de planejamento estratégico, de país, mas também de planejamento dentro das empresas.”

A especialista lembra que a parte macro se encerra agora, e cabe aos tomadores de decisão usarem as informações para definir suas próprias estratégias. A CGEE pensa em dar início a uma segunda etapa do trabalho com um olhar um pouco mais micro. A ideia é olhar com lupa as áreas que foram consideradas mais estratégicas, e entrar nos indicadores de forma um pouco  mais apurada, em um trabalho conjunto de detalhamento com as empresas do setor.