Carvão mineral ainda é o vilão global em geração de energia

Investimento em fontes limpas ainda é insuficiente mas faz parte de megatendências do mercado que sinaliza buscar um caminho para combater mudanças climáticas

A principal mensagem que o UNFCCC, agência das Nações Unidas para as questões relacionadas às mudanças climáticas, vem difundindo durante a COP-25, que é realizada até o dia 13 de dezembro em Madri, é que é tempo de agir. Em parte, esse posicionamento decorre da necessidade de acelerar os investimentos em energias renováveis para ajudar na redução das emissões de gases de efeito estufa. Em termos globais, um dos grandes vilões tem sido a geração por meio de carvão mineral, principalmente na Europa e na Ásia.
De acordo com o professor Emilio La Rovere, do Laboratório Interdisciplinar de Meio Ambiente da Coppe-UFRJ e que também é membro do IPCC, no segmento elétrico a questão do combustível mineral é o principal ponto a ser combatido. Ainda mais no momento em que o mercado vem buscando novas fontes de geração.
Segundo ele, nesse sentido, o Brasil está relativamente bem posicionado em decorrência de sua tradicional matriz elétrica que sempre esteve baseada em fontes renováveis, anteriormente, hídrica e agora com o avanço de eólica, solar e biomassa. Aqui o problema está mais concentrado na agricultura e pecuária, que devem adotar medidas que mitiguem as emissões.
“Em termos globais eu diria que o grande vilão é o carvão mineral. Esse é um problema na Europa, vemos a Alemanha que se entusiasmou e implementou um cronograma irrealista de desmobilização de energia nuclear e se viu diante da necessidade de retomar as usinas a carvão que devem ficar até 2038”, lembrou ele. “Na China vemos o avanço do uso desse elemento para a geração e nas siderúrgicas, ao ponto de no ano passado termos a adição de volumes mais elevados do que toda a energia eólica acrescentada por lá, e isso é preocupante, mostra que o carvão está forte. Enquanto não nos livrarmos dele fica complicado alcançar as metas de redução de emissões”, acrescentou.
Por outro lado, o mercado começa a mostrar as suas opções. Tanto que apesar do governo dos Estados Unidos apoiar o setor de carvão e petróleo, o avanço das renováveis tem prevalecido. Para o acadêmico, esse é o resultado da escolha do mercado, que está cada vez mais consciente da necessidade de preservação. De uma certa forma ele corroborou a visão de Luiz Barroso, da PSR e João Mello, da Thymos, durante a edição 2019 do Encontro Anual do Mercado Livre de que o mercado é quem escolheu as renováveis.
Ainda esta semana a Climate Trends, uma organização não governamental ambiental indiana, indicou que o carvão naquele país entrou em um processo que classificou como o início do fim desse combustível por lá. Cinco estados já adotaram políticas para não ter mais novas instalações de geração a base de carvão mineral.
Na opinião de Carlos Alonso, diretor de Políticas Energéticas e Mudanças Climáticas da Iberdrola, essa é uma das megatendências globais das quais os mercados não podem fugir, e quem demorar para tomar uma decisão de mudança para a economia verde – ou de baixo carbono – ficará para trás.
Sua opinião tem como base a experiência da companhia espanhola. Cerca de 20 anos atrás houve uma decisão por investir em fontes renováveis. Desde então aportou, segundo cálculos da empresa, algo como 100 bilhões de euros e hoje possui 31 GW em potência instalada de geração por meio de fontes renováveis ante um volume de 19 GW em outras usinas. Contudo, nesse último grupo não estão nem carvão nem combustíveis derivados do petróleo, apenas nuclear e gás natural, esta última apontada por ele como um combustível de transição e que ao passo que as fontes limpas avançam – com apoio de dispositivos como baterias (ou usinas reversíveis que atuam como baterias) – deverá ser chamada a despachar cada vez menos.
“Temos demonstrado que a economia verde não é boa apenas para o planeta e para as pessoas, mas para os acionistas também, afinal uma empresa deve apresentar rentabilidade”, comentou ele. “Portanto, o exemplo de negacionistas em grandes empresas de negócios tradicionais atacando as renováveis que são fontes que não geram resultados, empregos e crescimento econômico não é verdade”, afirmou o executivo durante o evento na capital da Espanha.
Alonso destacou ainda que a redução dos preços das fontes é consequência dessa aposta do mercado. Lembrou que há 10 anos a tarifa para a solar estava em 450 euros por MWh e hoje é comum ver patamares abaixo de 20 euros. Ou seja, tecnologias mais antigas, como a do carvão estão perdendo competitividade porque o mercado não quer mais.
“São megatendências contra as mudanças climáticas que a sociedade vem demandando e o mercado de capitais vem valorizando, um sinal de que há uma exigência pela descarbonização, por isso nossa estratégia dos últimos 20 anos se mostra correta”, avaliou. “Posso incluir ainda a luta contra a poluição atmosférica local, nas cidades que visam melhorar a qualidade do ar ao reduzir os níveis de CO2, NOx, particulados e enxofre. E essa atuação envolver as renováveis, eletrificação e a expansão dos veículos elétricos, ao aplicar tecnologias disruptivas”, acrescentou.
*O repórter viajou a convite da Neoenergia