Solange David, da CCEE: Novos desafios depois de abril

Em fim de mandato e com dois livros "no forno", executiva fala em novos desafios no retorno ao mercado

Após 18 anos de uma história construída dentro da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, a vice-presidente do Conselho de Administração, Solange David, deixará a organização em 30 de abril desse ano com a certeza de ter participado de alguns dos momentos mais importantes do mercado de energia elétrica no país. Ela pretende retornar ao setor após o término da quarentena de quatro meses, já vislumbrando os novos desafios e oportunidades que virão com a modernização, um fenômeno que acontece em todo o mundo.

Os planos para o período de afastamento são viajar, dar mais atenção à família e finalizar dois livros “que estão no forno”, conta em entrevista à Agência CanalEnergia. Um deles, sobre o mercado de energia elétrica, combina a experiência da formação nos cursos de História e Direito com a do mestrado e doutorado em Engenharia Elétrica. Trata-se de uma análise “com viés histórico, técnico e regulatório”, desde D. Pedro II e do primeiro conflito no setor elétrico, ainda no final do século XIX, até os dias de hoje.

O outro livro explora a tese de doutorado, na qual Solange trata do desenvolvimento do setor elétrico e tecnologia, sob os aspectos da economia, meio ambiente e sociedade. Ele trata também de mercado, mas explora principalmente a questão da sustentabilidade, com foco nessas três vertentes.

Em 2020, Solange David completa 40 anos de mercado de trabalho, dos quais 24 anos no setor elétrico. Na CCEE, ela foi gerente jurídica e consultora jurídica, antes de chegar a conselheira, onde está no final do segundo mandato.

Depois da quase duas décadas, Solange diz que sai satisfeita por ter podido contribuir em momentos decisivos para o setor e a organização. Entre esses momentos estão a mudança do MAE (Mercado Atacadista de Energia) para CCEE e a assunção de várias atribuições e responsabilidades pela Câmara de Comercialização. “Eu tenho orgulho de dizer que eu realizei muitas coisas aqui. Não sozinha, porque a gente não é sozinho, não se faz sozinho”, ressalva.

Solange faz parte de uma organização onde a diversidade de profissões e a participação das mulheres já é bastante expressiva. Elas representam 44% do quadro de colaboradores da CCEE, o que inclui as três integrantes do Conselho de Administração. Além da executiva, atuam como conselheiras Talita Porto e Roseane Santos.

“Nós temos 73% das mulheres com curso superior completo e 10% tem pós-graduação, mestrado e doutorado. Hoje eu diria, com base em uma pesquisa da Irena, a agência internacional das energias renováveis, que a CCEE tem duas vezes mais mulheres do que a média mundial da presença feminina no setor elétrico. Esse é um dado importante”, afirma Solange.

Ela avalia que o setor evoluiu ao longo do tempo e adquiriu multidisciplinariedade com a entrada de profissionais de diferentes formações, como advogados e economistas, onde antes havia basicamente engenheiros. Isso aconteceu, afirma, “em razão de uma característica importante para o setor, que foi a necessidade de agregação de inteligência.” A diversificação veio no rastro de uma construção regulatória, em um cenário no qual as mulheres começaram a ocupar mais espaços no mercado de trabalho, o que inclui o setor elétrico. Veja os principais pontos da entrevista:

Evolução do setor : “Eu estou atuando no setor há 24 anos. Nesses 24 anos, o que eu percebi em termos de setor foi uma multidisciplinariedade. Ou seja, antes um setor que tinha participação maior de engenheiro elétrico, em especial, começou a ser mais populado por advogados, por economistas e por outros profissionais, justamente em razão, acho, de uma característica importante para o setor, que foi a necessidade de agregação de inteligência.

Por que? Porque nós também vivemos um momento de construção regulatória. Quando a gente verifica a atuação da Aneel desde 1996, teve uma combinação de mudança de país em termos de abertura de mercado, principalmente com a Constituição [que trouxe] a livre iniciativa e a regulação, que caminharam juntas”.

Participação das mulheres no setor: “Antes tinha uma realidade acadêmica e universitária de homens advogados, engenheiros e economistas. A gente passou a ter uma ampliação da atuação da mulher. Então, acho que a própria migração da mulher para participação acadêmica fez com que ela ocupasse naturalmente postos no setor elétrico”.

Presença feminina na CCEE: “Hoje nós temos 44% do quadro do colaborador formado por mulheres. E, dessas, nós temos participação também no quadro de decisão. Tanto no Conselho, que de fato é um conselho diferenciado. Hoje nós temos três mulheres no conselho, quando as instituições de um modo geral não tem. Eu acho que é um diferencial. E também, voltando a essa questão da educação, que para mim é o que fez a diferença para a mulher.

Nós temos 73% das mulheres com curso superior completo e 10% tem pós-graduação, mestrado e doutorado. Hoje eu diria, com base em uma pesquisa da Irena, a agência internacional das energias renováveis, que a CCEE tem duas vezes mais mulheres do que a média mundial da presença feminina no setor elétrico. Esse é um dado importante. Aqui na CCEE, nós não temos mulheres só no Conselho de Administração, mas também em postos importantes em termos de gestão. No mercado regulado também, no monitoramento do mercado, em Termos de Adesão, no cadastro, no Jurídico, na própria Gerência de Relações Institucionais. Então, nós temos mulheres em postos chaves, em postos relevantes”.

Diversidade de profissões e de gênero:  “O que importa é quem sabe e quem faz. Então, você tem que saber como fazer, até para ocupar um posto relevante, e ai vem a preparação, comprometimento, dedicação, resultados que são apresentados. Independentemente do gênero. Homens e mulheres, todos são demandados. Agora, talvez possamos dizer que como o mundo corporativo e empresarial não é só isso, o resultado depende de outros elementos e de outros componentes que tem características intangíveis, como, por exemplo, a busca de equilíbrio entre a vida profissional e a vida familiar, a própria essência, talvez, da mulher em ter outras preocupações com características em termos de valorização do ser humano, que , alias, é um dos valores que a CCEE cultua também. Dos nossos seis valores, a valorização do ser humano é um deles”.

Planos após a saída da CCEE em abril: “Eu vou cumprir a quarentena de quatro meses, vou viajar e vou priorizar mais a minha família. Agora em 2020 eu completo 40 anos que ingressei no mercado de trabalho. Então eu vou fazer uma comemoração de vida e também uma comemoração da minha passagem aqui pela CCEE, eu vou focar mais na minha família, vou viajar. Vou finalizar dois livros que estão no forno, que eu estou escrevendo, estou quase acabando.

Como eu fiz História também, antes de fazer Direito, depois eu fiz mestrado em doutorado em Engenharia Elétrica, vou fazer um combinado. Um dos livros é sobre o mercado de energia elétrica, em que eu falo desde D Pedro II e do primeiro conflito no setor elétrico, que foi ainda no final do século XIX. E vou traçar um paralelo até os dias de hoje. Então, esse livro e sobre o mercado de energia elétrica, com viés histórico, técnico e regulatório.

E o outro é um livro sobre a minha tese de doutorado, que eu falei sobre a tríade do desenvolvimento do setor elétrico e tecnologia. Em que eu trouxe várias questões mundiais debatidas e fiz um paralelo com a evolução do Brasil. Então, é um livro mais direcionado para esses três aspectos. Sem falar muito, falando obviamente de mercado, mas focando principalmente sobre a questão da sustentabilidade, sob os aspectos economia, meio ambiente e sociedade. Então, eu foco mais em sociedade”.

Missão cumprida na CCEE: “Eu vou completar 18 anos na CCEE como gerente jurídica, consultora jurídica e depois como conselheira. Eu tenho orgulho de dizer que eu realizei muitas coisas aqui. Não sozinha, porque a gente não é sozinho, não se faz sozinho. A gente colabora (…) com o setor, com as mudanças que ocorreram ao longo desses 18 anos, como a mudança do MAE para CCEE, por exemplo, e a assunção de várias atribuições e responsabilidades pela CCEE. A reestruturação da organização, a própria construção da missão, visão e valores.

E aqui na área de que hoje eu sou diretora, que é a área de Operações, em que nós fizemos uma evolução grande, principalmente em termos de práticas e de estruturação de resultados. E, principalmente, enfrentando vários desafios ao longo dos anos. Então, eu diria que eu vou sair muito satisfeita por ter podido contribuir com tudo isso em momentos decisivos para o setor”.