Paralisação da UHE Retiro Baixo não afetará a operação do sistema elétrico nacional, diz ONS

Usina será utilizada para frear a onda de sedimentos causa pela queda da barragem em Brumadinho

O rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais, impactará a geração da hidrelétrica Retiro Baixo, localizada a 200 km do incidente, porém não trará maiores consequências para a operação do sistema elétrico nacional, informou o diretor geral do ONS, Luiz Eduardo Barata, em entrevista à Agência CanalEnergia nesta segunda-feira, 28 de janeiro.

Na tarde da última sexta-feira, 25 de janeiro, por volta da hora do almoço, o rompimento da barragem do complexo de exploração mineral do Feijão, da Vale, liberou toneladas de sedimentos e lama, matando dezenas de pessoas, animais, vegetações, além de desalojar centenas de famílias. Estima-se que mais de 300 pessoas estão desaparecidas. Autoridades governamentais nos níveis federal, estadual e municipal estão trabalhando para resgatar as vítimas da tragédia.

A Agência Nacional de Águas (ANA) já havia informado na sexta-feira que o reservatório da UHE Retiro Baixo seria utilizado para amortecer os rejeitos de minério. A medida visa evitar que a lama chegue ao reservatório da hidrelétrica Três Marias. Segundo Barata, a interrupção da geração em Brumadinho não causará maiores problemas para o sistema elétrico porque a usina tem uma contribuição muito baixa e estava gerando apenas 30 MW na sexta-feira.

A usina tem 82 MW de capacidade instalada e está localizada entre os municípios de Curvelo e Pompéu (MG), no baixo curso do Rio Paraopeba, afluente do rio São Francisco, onde se encontra a UHE Três Marias. Retiro Baixo tem garantia física de 38,5 MW e é explorada por Furnas, subsidiária da Eletrobras, e Cemig. Em 2015, quando tragédia semelhante aconteceu em Mariana, com o rompimento da barragem da Samarco, a hidrelétrica Candonga segurou 80% dos rejeitos de mineração que foram carreados pelo Rio Doce.

“A UHE Retiro Baixo tem uma contribuição muito pequena para o sistema. Não deverá perturbar em nada a operação elétrica e energética do sistema”, garantiu Barata. Na sexta-feira, 25, a usina teve sua operação paralisada. No sábado, a hidrelétrica voltou a gerar energia, mas deverá ter a geração interrompida novamente na parte da tarde desta segunda-feira, 28.

DEMANDA EM ALTA

O desastre em Brumadinho acontece em um momento de alta demanda por energia elétrica e restrições operativas no sistema de transmissão. Nas últimas semanas, o Sistema Interligado Nacional (SIN) registrou seguidos recordes de carga, impactada pelas altas temperaturas e o uso mais intenso de ar condicionado.

A previsão de carga nacional de energia para fevereiro aponta para um crescimento de 7% na comparação com igual período do ano passado. Barata explicou que além da temperatura elevada, a comparação fica comprometida porque em fevereiro de 2017 o feriado do Carnaval reduziu o número de dias úteis daquele mês.

Nas últimas semanas, o ONS teve que operar o sistema em um cenário com muitas restrições no sistema de transmissão. Em 12 de janeiro, criminosos derrubaram uma torre de transmissão no Ceará interrompendo um ramal de 500 kV importante para fornecimento da energia elétrica no Nordeste. Posteriormente um incidente interrompeu a operação do bipolo de Belo Monte Xingu-Estreito. Além disso, os dois bipolos responsáveis pelo escoamento da energia das usinas do rio Madeira também ficaram fora de operação. Na semana passada, a usina nuclear de Angra 2 também deixou de gerar energia.

“Com exceção dos pólos do Madeira, todos os outros sistemas já voltaram à operação. Estamos prevendo para o início da semana que vem o retorno do segundo pólo do Madeira, ficando pendente apenas o pólo um, esse sem previsão de voltar. Adicionalmente, a previsão é de temperaturas mais baixas para os próximos dias, portanto, um consumo menor”, disse Barata. A restrição do pólo um do Madeira reduz a capacidade de escoamento do complexo hidrelétrico do Madeira em 1.500 MW.

Barata disse ainda que seria precipitado afirmar que haverá necessidade de despacho de termelétricas fora da ordem de mérito nesta ano. “Estamos no meio de um período chuvoso ruim, mas isso não significa que esse quadro não vai se reverter em fevereiro”, concluiu.