Tecnologia atual permite alcançar metas climáticas de 2030, apontam cientistas

Países precisam adotar politicas para incentivar a transformação digital para que o compromisso do Acordo de Paris seja alcançado

O mundo começa a entrar em uma viagem sem volta rumo ao uso mais amplo da tecnologia aplicada à energia elétrica e que em alguns anos deverá levar à queda da demanda por petróleo, bem como seu uso mais consciente. Essa é a análise holística de cientistas de diversos países sobre as perspectivas do setor energético em termos globais ao passo que a pressão pela redução das emissões de CO2 avançam.

A avaliação pega carona na divulgação na última quarta-feira, 9 de outubro, do Prêmio Nobel de Química 2019 concedido para três cientistas que trabalharam em diferentes épocas para a criação das baterias de íons de lítio. Inclusive, um deles, o japonês Akira Yoshino, já foi laureado com o Global Energy Prize justamente pelo seu trabalho com baterias, em 2013. O dispositivo tem sido considerado como de fundamental importância para o avanço da geração renovável, permitindo a mitigação de sua variação e com isso atribuir uma característica mais estável a essa modalidade de produção de energia. E este ano o tema voltou à pauta do prêmio com o cientista Khalil Amine que vem desenvolvendo uma segunda geração desse dispositivo.

Esse cenário chega em um momento em que a tendência é de que o consumo aumente, seja pelo crescimento per capita ou pelo aumento do alcance cada vez maior da energia. Até porque as estimativas apontam que cerca de 1 bilhão de pessoas ainda não têm acesso à eletricidade e que o uso da tecnologia pode proporcionar a essa parcela da população mundial sua integração por meio dessa nova revolução da vida moderna.

Ainda é necessário que haja o estabelecimento de políticas públicas na maioria dos países ao mesmo tempo que se desenvolve dispositivos para o financiamento dessas fontes. Marta Bonifert, cientista e membro do comitê do Global Energy Prize.

O desafio atual, apontaram os cientistas está justamente no fato de atender a esse crescimento da demanda e ao mesmo tempo reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Para esses especialistas, todos vencedores do mesmo prêmio que o pesquisador japonês, concedido pela Global Energy Association (GEA), é que é possível dar a resposta para esse desafio por meio da ciência.

Entretanto, para se alcançar essa meta é necessário que se estabeleça algumas diretrizes. Na avaliação de Marta Bonifert, que é membro do Forum de Líderes na Hungria e do comitê do prêmio internacional da GEA, a ciência tem as respostas. Contudo, ressaltou que ainda é necessário que haja o estabelecimento de políticas públicas na maioria dos países ao mesmo tempo que se desenvolve dispositivos para o financiamento dessas fontes.

“Assim podemos ver a transformação energética que está baseada na digitalização ganhar mais velocidade”, apontou ele durante painel na Russian Energy Week 2019, evento realizado na cidade de Moscou.

Oleg Burdagin, vice-presidente do Conselho Mundial de Energia para Desenvolvimento Regional, concordou e afirmou que a velocidade da introdução das novas tecnologias podem se dar de uma forma mais acelerada. Isso, contudo, depende da ação política. A resposta técnica está nas pesquisas, mas o que viabiliza estes programas é o incentivo.

Nesse sentido, descreveu, paira a necessidade de se pensar em instrumentos para financiar o investimento em energia limpa ao redor do mundo. Os cientistas afirmaram que ainda há tempo para alcançar as metas estabelecidas no Acordo de Paris para 2030. Contudo, a ação tem que ocorrer imediatamente. A análise é de que no horizonte da indústria energética já estamos quase nesse limite de tempo.  “Ainda há tempo de fazermos um monte de coisas, temos uma década, mas devemos começar a correr para atender as metas”, acrescentou a cientista húngara.

Na avaliação de Amine, um dos dois ganhadores do Global Energy Prize deste ano, a questão do financiamento de projetos destinados ao mercado energético é tão primordial quanto o desenvolvimento da tecnologia. Em sua análise, boas políticas públicas de incentivo podem viabilizar a introdução de novos dispositivos que levam a uma redução da emissão de gases de efeito estufa.

Mas, lembrou Chung Rae Kwon, presidente do comitê responsável pela premiação da GEA e membro do IPCC que recebeu o Nobel da Paz em 2007, investimentos e ações ainda dependem da convicção dos países acerca das medidas e seus objetivos para o futuro. Ele lembrou do caso da Dinamarca, que recentemente teve vários dias de consumo de energia elétrica supridos apenas pela fonte eólica. Esse resultado alcançado este ano, destacou, foi o resultado de uma decisão tomada no passado visando o longo prazo, quando aquele país decidiu investir em fontes renováveis por convicção.

“Não sei se alcançaremos as metas de 2030, mas não pela inexistência de tecnologia necessária para isso, e sim porque o maior desafio é o entendimento de que precisamos alcançar essas metas por meio de políticas e a realização de investimentos anuais cujos valores não estamos alcançando”, Frede Blaabjerg, professor da Universidade de Aalbor, Dinamarca.

O outro laureado pela GEA em 2019, o dinamarquês Frede Blaabjerg comentou ainda que a eletrificação cada vez maior também terá um papel importante na questão da integração das pessoas à indústria da eletricidade. Isso porque não é apenas aumentar o alcance do fornecimento que deve estar no centro das atenções. Mas também oferecer o insumo de forma mais eficiente. E isso, destacou ele, pode ser obtido pelo uso da tecnologia que pode proporcionar esse benefício em termos de uso mais eficiente ao mesmo tempo que a geração é feita com menos emissões de gases de efeito estufa.

Contudo, Blaabjerg não se mostra tão otimista com os próximos 10 anos. “Não sei se alcançaremos as metas de 2030, mas não pela inexistência de tecnologia necessária para isso, e sim porque o maior desafio é o entendimento de que precisamos alcançar essas metas por meio de políticas e a realização de investimentos anuais cujos valores não estamos alcançando. Podemos alcançar os objetivos de 2030 sim, mas não estou tão otimista por conta do que estamos vendo na prática”, apontou ele.

Dentre as tecnologias disponíveis e que já começam a fazer sentido econômico em países europeus está a captura e armazenamento de CO2 no subsolo. Na avaliação de Rodney Allam, que também é membro do IPCC e da GEA, o cenário atual apresenta muitas oportunidades para a ciência atuar. Independentemente das políticas a tecnologia está disponível e pode ajudar a limpar a atmosfera.

Kwon ressaltou por sua vez que a transformação digital que o mundo vive abre novas oportunidades para aqueles países que estão focando seu trabalho no futuro. Ele citou ainda a China e suas cidades como Shenzhen que vem se destacando no uso da eletrificação para o transporte. “Há países olhando para o passado ainda pensando no carvão e mineração, é a escolha deles. São opções há governos que estão olhando para o futuro e outros mantendo o que se praticou no passado. Acredito que aqueles que olham para o futuro sairão vencedores”, apontou o cientista.

Petróleo e gás

A edição da REW 2019 ocorreu cerca de duas semanas após os ataques à maior refinaria de petróleo da Arábia Saudita. As discussões dos principais painéis com autoridades globais em energia estiveram centradas justamente nesse tópico. Isso, explicou o coreano Kwon, deve-se ainda à elevada dependência que a sociedade tem acerca desse combustível.

Apesar de defender a redução dos incentivos e subsídios aos hidrocarbonetos, ele destacou à Agência CanalEnergia que o mundo ainda precisa e deve utilizar esse recurso. Isso porque há uma grande gama de ações e de benefícios que a população mundial pode tirar desse insumo. Ele defende a continuidade do uso, mas para uma aplicação mais nobre desses hidrocarbonetos.

“Hoje a maior parte do uso que se faz do petróleo e do gás se dá por meio da queima, essa é a pior forma de se utilizar esse recurso natural que é rico. Podemos usá-los para atividades mais nobres pois ainda há muita coisa que se faz com hidrocarbonetos, queimar é a pior opção pois uma vez que isso acontece as moléculas se perdem”, comentou ele. “Naturalmente a demanda recuará no futuro, assim como os preços e a dependência que temos desses insumos. Acredito que se já não fôssemos tão dependentes essa crise na Arábia Saudita teria impactos muito menores do que vimos este ano”, finalizou ele.

*O repórter viajou a convite da Global Energy Association