Clima está no centro do planejamento energético, diz EPE

Vice-presidente da CTG disse que distorções criadas no mercado de energia são resultado de soluções pontuais que desconsideraram questões estruturais e de longo prazo

A mudança climática não é uma questão centrada apenas em evitar emissões de gases poluentes na atmosfera por conta do risco de aquecimento global. O tema afeta diversos setores econômicos e por isso a importância de considerar os possíveis impactos desses fenômenos climáticos sobre a segurança do suprimento energético do planeta.

Durante a primeira edição virtual do Encontro Nacional dos Agentes do Setor Elétrico (ENASE), o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Thiago Barral, foi claro ao dizer que o tema da mudança climática “toca todos os aspectos do planejamento energético nacional”, e citou a importância de definir um plano de gestão abrangente desses impactos, bem como evitar decisões que limitem a penetração de novas tecnologia.

Segundo ele, o planejamento energético de longo prazo está apoiado em quatro pilares: segurança energética, competitividade, redução do impacto socioambiental e desenvolvimento socioeconômico. “Esses quatro objetivos são as bases para o desenvolvimento da nossa estratégia”, disse o executivo nesta terça-feira, 29 de setembro, primeiro dos quatro dias de evento, durante o painel PNE 2050: Construindo a Nova Matriz Energética.

Para Barral, os principais desafios do Brasil envolvem realizar as reformas no mercado de energia visando dar maior dinamismo e melhorar a alocação de custos, riscos e benefícios no sistema. “Os sistemas energéticos devem seguir um processo de redução da intensidade de emissão de carbono, em uma transição energética marcada pela forte competição. Esse é um processo irreversível e, portanto, permeia toda a estratégia”, reforçou o planejador.

O vice-presidente de Geração e Comercialização da CTG Brasil, Evandro Leite, disse que a maior parte das distorções criadas no mercado de energia são resultado de soluções pontuais que desconsideraram questões estruturais e de longo prazo. Disse que o Brasil tem o mal hábito de criar subsídios “não explícitos” e pediu mais transparência.

O executivo citou como exemplo a contratação da usina nuclear de Angra 3 e da energia eólica na modalidade de reserva. “Isso gera um impacto enorme sobre o MRE [Mecanismos de Realocação de Energia] totalmente desnecessário.” Leite também criticou a atual modelagem para o cálculo da garantia física das hidrelétricas, classificando-a como “anacrônica”.

“Calculamos de uma forma concentrada como se fosse um único reservatório e depois fazemos o rateio extremamente questionado. Há mais de 10 anos temos condições de calcular as garantias físicas de forma individualizada”, afirmou o executivo da CTG, uma das maiores geradoras de energia do Brasil e do mundo, com matriz na China.

Também presente no painel, Celso Cunha, presidente da Associação Brasileiro para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (Abdan), criticou a política “vagalume” para energia atômica e disse que essa falta de continuidade dificulta a captura dos ganhos de escala e benefícios que a pesquisa nuclear pode gerar para o Brasil. “O Brasil tem a sétima maior reserva de urânio do mundo e só estudamos 1/3 do território nacional”, destacou, defendendo a continuidade dos investimentos em usinas nucleares pela sua contribuição para a segurança energética nacional.

Outro debate importante, quando olhamos para o futuro da matriz energética, é sobre quais são as premissas que o governo deve utilizar para o desenvolvimento do mercado de gás natural, considerando o combustível da transição energética para uma indústria de baixo carbono.

Para Camila Schoti, head da Eneva Comercializadora, o preço da molécula de gás está caindo no mundo e se tornando cada vez mais competitivo. “O gás natural tem a mais baixa emissão de CO2 dos combustíveis fósseis”, afirmou durante o evento. Para a especialista, a dúvida que resta não é se o gás natural será o combustível da transição energética, mas por quanto tempo a fonte terá esse papel fundamental para acomodar a entrada de novas tecnologias de geração e armazenamento de energia.

Quem também saiu em defesa das térmicas foi o presidente da Associação Brasileira do Carvão Mineral (ABCM), Fernando Zancan. O executivo destacou que o objetivo final da política ambiental não deve ser evitar atividades que emitam carbono, mas sim desenvolver tecnologias que realizem a captura desse gás prejudicial para a vida na terra.

Para ele, todas as tecnologias de geração de energia precisam trabalhar para evitar emissões. Uma nova tendência mundial é conhecida pelo acrônimo CCS (Carbon, Capture & Storage). “Estamos vendo restrições a indústria de carvão na Europa e agora para indústria de gás por causa das mudanças climáticas… Daí entra a tecnologia de captura de carbono. Temos a necessidade de botar o pé no acelerador na busca da captura de carbono”, disse Zancan. “O CCS vem muito pesado, não só para a geração elétrica, mas para nível industrial e todo mundo que gera CO2”, enfatizou.

Aos presidente da Associação Brasileira dos Geradores de Energia (Abrage), Flávio Neiva, e da Associação Brasileira de Pequenas Centrais Hidrelétricas (Abrapch), Paulo Arbex, couberam a missão de sair em defesa da continuidade da expansão da matriz hidrelétrica.

No entanto, Barral disse que a tecnologia tem um desafio enorme, pois 80% do potencial hidrelétrico explorável impactam em terras indígenas e, dessa forma, a expansão da fonte requer um debate com a sociedade.

Para Neiva está claro que a expansão hidrelétrica continuará, porém, de uma forma menos acentuada do que foi no passado. No entanto, destacou a importante contribuição elétrica da fonte para a segurança do suprimento de energia do país.

“Inércia do sistema interligado está diminuindo, isso faz com que a frequência afunde porque esses outras fontes não têm inércia para segurar a frequência”, disse. “O tronco Nordeste e Sudeste fica bastante carregado com a geração eólica e se ele abrir o Nordeste fica em inércia”, alertou o especialista.

Mário Miranda, presidente da Associação Brasileira de Transmissores de Energia Elétrica (Abrate), destacou a importância de se também ter um olhar estratégico sobre a modernização das linhas e subestações de energia. “Temos que olhar as mudanças climáticas também pelo aspecto da transmissão, os ventos estão mudando e a troca de calor também”, pontuou.