Apesar de todo o êxito já alcançado com a fonte eólica, o Brasil deve manter o foco na competitividade da fonte de maneira a continuar a atrair investimentos e tornar a cadeia industrial mais densa ainda. Em entrevista à Agência CanalEnergia, o vice-presidente para Assuntos Institucionais e Governamentais na América Latina da fabricante de aerogeradores Vestas, Leonardo Euler de Morais, diz que, como o país não tem espaço para mecanismos como o Inflaction Reduction Action norte-americano, deve buscar formas de garantir a perenidade da cadeia.

“Temos que pensar em maneiras de desonerar a cadeia, garantir a maior competitividade, para que o Brasil não apenas seja um gerador de energia eólica, mas também que possa continuar adensando a cadeia e evitar esse processo de desmobilização”, explica.

O executivo da fabricante de aerogeradores destaca que hoje a máquina das Vestas tem 80% do valor de conteúdo Nacional e 20% é importado. Ele conta ainda que há uma busca contínua por parceiros locais. Nos últimos três anos, calcula que a Vestas respondeu por mais de 6 GW do que foi instalado de eólicas no Brasil.

Hoje ele vê como desafio maior a demanda e sugere um olhar fora do convencional para debelar esse entrave. Os Data Centers, que ganham importância com a intensificação das tecnologias de dados, podem ser um novo mercado. “Acho que o Brasil também pode pensar em políticas de atração desses grandes consumidores. Isso vai gerar a demanda para os nossos clientes e por consequência novas solicitações de turbinas eólicas”, relaciona.

Morais acredita que o país pode se apresentar como um polo exportador de aerogeradores e salienta que a distância entre La Guajira, na Colômbia, e Aquiraz, no Ceará, onde está a fábrica da Vestas, é a mesma para o Rio Grande do Sul. A região do Caribe colombiano tem sido apontada como uma nova seara de potencial eólico. “Por que não o Brasil, também se apresentar como um exportador de aerogeradores e dessa tecnologia que tem um altíssimo valor agregado?”, indaga.  México e Argentina podem ser futuros mercados, assim como os EUA, que também poderia ser suprido por pás e outros componentes produzidos no Brasil.

Ele conta que hoje já há um entendimento do governo que o regime tributário deve favorecer a fabricação nacional, de modo que a importação fique desvantajosa. No fim do ano passado, o governo estabeleceu que a partir de 2025, todas as compras de componentes eólicos fora do país serão taxadas em 11,2% e as isenções só serão concedidas ao que não há equivalente local. Para Morais, ainda assim é preciso mais para que a competição fique igual. “Precisa aumentar isso para criar condições mais isonômicas. Afinal de contas, se não tiver medidas nesse sentido, muito provavelmente, vai ser difícil adensar essa cadeia”, alerta o executivo.

A aprovação do marco legal da fonte eólica offshore, que ainda tramita no Senado, é considerada por Morais apenas o primeiro passo de um longo caminho. Ele acredita que as etapas seguintes até a primeira licitação de fato não podem ser desconsideradas. Decretos infralegais, portarias, análises, consultas públicas e avaliações jurídicas dentre outros ritos serão necessários para que o ambiente fique propício aos agentes investidores.

O executivo da Vestas fala com a autoridade de quem presidiu a Agência Nacional de Telecomunicações e conduziu o leilão do 5G, que também demandou um enorme esforço dos agentes envolvidos. “Nós temos um trabalho árduo depois do projeto de lei para chegar no momento de licitar”, aponta. Para ele, é preciso a consciência de que a falta de um ordenamento legal adequado antes da licitação pode colocar a perder todos os planos para a geração eólica no mar. A expectativa do setor é que em 2032 os primeiros projetos estejam em operação.

A Vestas é considerada uma das pioneiras no segmento offshore, atuando em mais de 15 países. Na visão do executivo, a chegada dessa fonte no Brasil depois de estabelecida em outros mercados trará a vantagem de aprender com o erros já cometidos e melhorar práticas. Aprimorar o leilão de cessão da área de uso aparece como uma dessas oportunidades. Não considerar apenas o preço e olhar para a descarbonização e o conteúdo local podem ser saídas.

“O Brasil não deveria ter uma abordagem meramente fiscal arrecadatória, porque me parece uma visão míope, que não maximiza o potencial direto e indireto da exploração do potencial brasileiro”, conclui.